Brasil precisa de compensação financeira para proteger a Amazônia


Num artigo brilhante, publicado no Financial Times, o escritor Andreea Leonte mostra com a clareza de um dia de sol muito intenso porque o Brasil deve ser compensado para preservar a floresta Amazônica.

Os países ricos não podem exigir do Brasil, o que eles mesmo nunca fizeram, ou seja explorar suas riquezas naturais. O Bolsonaro, em vez de ficar humilhando o Moro publicamente, deveria ler esse artigo e se inspirar para fazer seu discurso na ONU, em Nova York.

Leia o artigo do senhor Andreea Leonte :


Milhões de hectares de floresta estão queimando, enquanto observamos impotentes. Os incêndios na Sibéria levaram a Rússia a declarar estado de emergência em julho, e agora a floresta amazônica está em chamas. A gestão dos incêndios no Brasil provocou indignação global. Mas procurar bodes expiatórios é realmente tudo o que podemos fazer?

O destino do planeta não deve estar apenas nos ombros do Brasil. Embora a floresta amazônica represente cerca de 40% do território brasileiro, o país não tira muitas vantagens econômicas.

O presidente Jair Bolsonaro atraiu críticas por querer explorar a Amazônia, mas pedir a ele que poupe a floresta tropical a todo custo, por todo o tempo, é igualmente injusto. Poucos esperam que a Arábia Saudita pare de perfurar e exportar suas reservas de petróleo em nome da redução das emissões de carbono.

Uma abordagem mais justa seria considerar as metas de desenvolvimento do Brasil e compensar o país pelas perdas econômicas associadas à não exploração da Amazônia. Nossa melhor chance de salvar essas florestas é torná-las mais valiosas para seus países anfitriões intactas do que usa-las para terras agricultura ou mineração.

A experiência na China, Índia e sudeste da Ásia mostra que os países em desenvolvimento raramente abrem mão de oportunidades de crescimento para evitar danos ambientais.

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Quando muitos países começam a se concentrar em políticas ambientalmente amigáveis, milhares de espécies podem estar extintas, pois os ecossistemas sofrem danos permanentes. Em vez de esperar por mudanças políticas, devemos usar incentivos financeiros.

As economias desenvolvidas do mundo podem fornecer apoio financeiro temporário aos países em desenvolvimento que hospedam florestas tropicais, ajudando-os a crescer sua economia sem recorrer à exploração florestal. Pelos meus cálculos, o sacrifício seria pequeno, menos de meio por cento do produto interno bruto.

Para a Amazônia, devemos considerar um esquema de compensação anual que recompensaria o Brasil por garantir que nem mais um hectare da floresta seja convertido em agricultura. As negociações podem ser difíceis: Bolsonaro inicialmente recusou a oferta de ajuda de US $ 22 milhões do G7, alegando que o grupo estava tratando o Brasil como uma “colônia”.

No futuro, essa compensação deverá ser concedida sem restrições, além de garantias de que a floresta tropical será preservada e a ajuda externa será aceita para combater futuros desastres ecológicos.

Assim como a Unesco foi criada para proteger o patrimônio cultural da humanidade, é hora de permitir que um organismo internacional tome as medidas necessárias para proteger as florestas consideradas vitais para o planeta.

Chegar a um acordo sobre quanto pagar e quais países são elegíveis será difícil, mas quanto mais cedo projetarmos um mecanismo eficiente para preservar nossas florestas tropicais, melhor. Não podemos mais sacrificar nosso ambiente por interesses econômicos; reparar danos ambientais nos custará consideravelmente mais do que tomar medidas preventivas.

Para que isso funcione, devemos garantir que os países cujo território é amplamente coberto por florestas tropicais não sofram desvantagens econômicas por não explorarem essas terras. O dilema do Brasil é instrutivo.

É um dos principais exportadores de soja para a China. A guerra comercial China-EUA incentiva a transformação de áreas florestais em novas terras agrícolas para aumentar a produção de soja. A concessão de compensação ao Brasil pela preservação da Amazônia poderia ajudar a reorientar seu investimento para outros setores.

As florestas em todo o mundo, e as florestas tropicais em particular, desempenham um papel crucial na estabilização do clima, evitando a desertificação e os deslizamentos de terra e armazenando o excesso de dióxido de carbono, além de acomodar cerca de 80% da biodiversidade terrestre do mundo.

Eles são um dos ativos naturais mais valiosos que possuímos e é imperativo protegê-los. Se nossas ambiciosas atividades destruírem a natureza, não haverá mais ninguém para contar nossa história.

O escritor é membro do Instituto Romeno para o Estudo da Ásia-Pacífico e pelo visto o único que vive no mundo real e que enxerga essa situação da maneira que é. Nenhum país do mundo, rico especialmente, deixou de explorar suas riquezas naturais em prol da preservação do meio ambiente.

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